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Minha (intensa) relação com a poesia

31 de outubro de 2017

Minha relação com a literatura brasileira começou logo cedo, quando aprendi a ler e colecionava gibis da Turma da Mônica, de Maurício de Souza. A leitura sempre fez parte da minha vida, de uma forma tão natural que eu não conseguiria descrever. Mas, quando falamos em poesia, esse gosto pelas palavras teve forma quando me deparei com o “Soneto de Fidelidade”, de Vinicius de Moraes.

Que mulher nunca, quando menina, sonhava com o seu príncipe encantado que “mesmo em face do maior encanto, dele se encantasse mais meu pensamento”? Até então, a jovem apaixonada pelos versinhos ali expostos não nutria qualquer sentimento especial pelo poeta da paixão.

SONETO DE FIDELIDADE

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Enquanto passava a adolescência, aquele caderno de poemas, e frases de desconhecidos, me acompanhava fielmente, assim como a paixão pelas aulas de literatura, produção textual e história. Lembro-me que o professor da oitava série, que por sinal tinha um nome muito poético, “Narciso”, colocava suas fitas no vídeo cassete – tecnologia incrível para a época – e eu me perdia nos decassílabos, estrofes e rimas.

Contudo, foi só depois de me aventurar por terras nipônicas que me vi apaixonada, de fato, pela poesia! “A Rua dos Cataventos” o primeiro livro de poesias de Mário Quintana, publicado em 1940, foi também minha estréia pelos versinhos.  Me encontrei com Quintana, poeta tão intenso e melancólico, assim como eu.

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Minha relação com a poesia estava tomando forma. Nessa época eu já conhecia Carlos Drummond de Andrade e havia me deparado com sua “pedra no meio do caminho”.

No Meio do Caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Porém, caros leitores, a poesia transformou minha vida inteira e profundamente quando encontrei Vinicius de Moraes. Me afundei em sua obra e história e, ali, encontrei mais de mim do que em mim mesma. Cada verso traduzia aquilo que eu mantinha preso e não conseguia libertar.

E querem um dado curioso e, ao mesmo tempo, lindo? Todos os citados aqui são da segunda fase do modernismo, fase literária que pregava o verso livre, buscava muito o sentido do “eu” e lutava contra injustiças, já que o mundo encontrava-se em uma crise intensa.

Mas, voltando ao Vinicius. Ele, é um dos poetas mais significativos da literatura brasileira, me conquistou assim, profundamente também quando migrei dos poeminhas para a sua música! Logo que mergulhei nesse mundo incrível, encontrei “O Poeta e o Violão”, disco dele com Toquinho! Ah, como esse álbum me trouxe de volta ao meu eu que já havia se perdido a tanto tempo!

Mas essa, amigos, é outra história. Conto depois.

A autora deste texto é jornalista. Extremamente sensível. Viciada em café. Amante de poesia e, às vezes, da seus palpites fashionistas. Atualmente este blog também está hospedado no Portal Bonde. Sentem-se e fiquem à vontade.
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